O Silêncio da Espera

Em frente ao hospital
Um homem são espera em seu carro
Protegido do sol pelos vidros escuros
E pela barba bem aparada
Do clima, pelo ar condicionado
Do silencioso caos da cidade
Por um poema que Tom Waits canta
Em seu moderno sistema de som
No fundo ele agoniza
Enquanto escolhe
Uma caixa de vinhos por um aplicativo
Após ler as últimas notícias
Enquanto espera
Enquanto Armani o estrangula
Com a fina seda de sua gravata
E o homem continua esperando
Consciente de que tudo o que pode fazer
É esperar

Na praça ao lado
Ninguém sabe de sua dor
Nem mesmo o outro homem
Que acordou e viu um carro parado
Esperando
Enquanto ele mesmo espera por algum trocado
Protegido do sol
Pelo frio concreto do banco
E pela barba negra que nunca apara
Do clima, pelo caderno de notícias
Do caos da cidade, pelo silêncio da embriaguez total
Que lhe canta poemas em outras línguas
Enquanto a vida lhe estrangula
Com os trapos que lhe são doados
Enquanto ele espera se encontrar
Consciente de que todas as suas dores
Só hão de doer em si mesmo
Posto que ninguém o espera
E não há ninguém para ele esperar.

 

Filosofando: à direita do Pai.

Meu nome é Bruno e garanto que, assim como o inferno está cheio de boas intenções, à direita do Pai certamente há toda sorte de inventores e artistas, o que demanda uma vastidão de cadeiras (quisera eu que esta fosse a prova do infinito conceitual) para que os mesmos tomem confortável assento eterno.
Imagino que ali (agora adentro o ramo das suposições), algum querubim já tenho posto a harpa de lado ao ouvir Bach e Mozart em pleno embate melódico com Hendrix e Stevie Vaughan, em um sarau onde BB King, T-Bone, Chester Burnett e outros parecem desatentos ao tema, porquanto questionam Rev. Gary Davis acerca das possibilidades jurídicas de trazerem Robert Johnson às mesmas cadeiras.
Percorrendo o amplo (infinito?) salão, e claro, ainda à direta do Pai, verifica-se que certamente o Filho não precisou operar nenhuma transmutação de líquidos. Isso porquê há séculos já tomaram assento os inventores do vinho e da cerveja.
E tudo segue de bom a melhor, pois quem inventou o ar condicionado também já deve ter sua cadeira em bom lugar.

 

 

 

 

 

 

 

tragédia

uma rolha explodiu na Borgonha
no exato momento em que a faca
desceu lacerando com indizível indecência
uma bela peça de picanha

e a criança segue chupando o peito murcho
de uma mãe sem carne, sem vida, sem cor.
gente que de tanto sofrer talvez nem mais saiba
o significado da palavra dor

há mais de mil motivos para o sommelier
indicar determinado carménère
no momento em que mais de mil somalis
morrem de fome em um lugar qualquer

alguém chuta uma bola
no momento em que alguém chuta o cão
uns pedem empréstimo, outros esmola
outros choram por uma nação

apertam mãos, botões, gatilhos,
matam bichos e multidões
enquanto alguns planejam filhos
e outros, revoluções.

a tragédia é anunciada como fato isolado
e os internautas discutem excitados
qual tragédia é mais digna de oração
qual bandeira vestir

qual a melhor solução
zapear de canal
no momento em que um homem bomba
também pode apertar um botão

no momento em que a rolha estoura
uma bomba explode no Afeganistão
o mundo todo sangrando chora
quando a faca desliza e degola um irmão

nesse exato momento
um se levanta, outro cai
mãos afagam ou matam,
pau entra, pau sai

e a vida segue trágica
como sempre foi
como sempre será
sem vida, sem mágica
sem graça,
sem nada.

Frio, vinho e poesia.

salon-vin-gastronomie-renne1Friozinho cada vez mais persistente, noites regadas a um bom vinho cada vez mais frequentes.

Estava eu organizando meus escritos para o próximo livro (um projeto 8% concluído e outro possivelmente a 60%) quando me deparei com um poema quase pronto, cujo tema é justamente esse néctar dos deuses que nos aquece os corações e aproxima as pessoas com sua vasta gama de possibilidades, aromas e sabores. Talvez eu devesse deixar esse poema envelhecer nos barris magnéticos de cobalto do meu HD por mais uns meses, para que aos poucos eu pudesse amadurecer essa idéia e atingir um resultado melhor. Porém, nos últimos dias, tive o prazer de degustar vinhos tão agradáveis com minha esposa e amigos, que resolvi publicar aqui no blog meu poema “Confraria”, assim mesmo do jeito que está.

CONFRARIA

Ó venturoso filho de Júpiter que

Pioneiro apuraste o precioso néctar

Da sagrada fruta, bago por bago

Assim te saúdo: Evoé Baco!

Ao violáceo suco divino

Escreverei pouco, porém com fé

Qual portentoso paladino

A toda voz evoco: Evoé!

Porque sempre que vem a mesa

Um suculento filet mignon

Há que se abrir na certeza

Um bom Cabernet Sauvignon

Conforme o tempero, vai de Merlot

Que, aliás, com queijos é uma beleza

Ou quem sabe o famoso Bordeaux

Este também rima com bolognesa!

Frutos do mar ou peixe assado

Seja um salmão ou um tucunaré

Será sempre bem acompanhado

Se servido com um Chardonnay.

Ou um Riesling, conforme o paladar

Se quiser ousar, sirva um bom Rosé

Ou se o desejo for avermelhar

Sempre cabe um Beaujulais

Um bom churrasco ou grelhado

Tanto bovino quanto suíno

Fica muito melhor quando ao lado

De um grande Malbec argentino

E aquela carne mais gorda

Ou um queijo suíço gruyère

Parmesão, gorgonzola, gouda

Tudo vai bem com o Carménère

E viva o vinho Italiano!

E viva o vinho português!

Barolo, Chianti, Brunello,

Trincadeira, Castelão, Aragonez!