O Silêncio da Espera

Em frente ao hospital
Um homem são espera em seu carro
Protegido do sol pelos vidros escuros
E pela barba bem aparada
Do clima, pelo ar condicionado
Do silencioso caos da cidade
Por um poema que Tom Waits canta
Em seu moderno sistema de som
No fundo ele agoniza
Enquanto escolhe
Uma caixa de vinhos por um aplicativo
Após ler as últimas notícias
Enquanto espera
Enquanto Armani o estrangula
Com a fina seda de sua gravata
E o homem continua esperando
Consciente de que tudo o que pode fazer
É esperar

Na praça ao lado
Ninguém sabe de sua dor
Nem mesmo o outro homem
Que acordou e viu um carro parado
Esperando
Enquanto ele mesmo espera por algum trocado
Protegido do sol
Pelo frio concreto do banco
E pela barba negra que nunca apara
Do clima, pelo caderno de notícias
Do caos da cidade, pelo silêncio da embriaguez total
Que lhe canta poemas em outras línguas
Enquanto a vida lhe estrangula
Com os trapos que lhe são doados
Enquanto ele espera se encontrar
Consciente de que todas as suas dores
Só hão de doer em si mesmo
Posto que ninguém o espera
E não há ninguém para ele esperar.

 

Lançamentos agendados!

A Menina e o Equilibrista, meu segundo livro, já tem as datas de lançamento definidas: Dia 19/04, no Unico Lounge Bar em São Sebastião do Paraíso/MG, o lugar mais aconchegante da cidade, ideal para falarmos de coisas amenas como literatura e cheiro de livro novo!

Clicando na imagem abaixo, você será redirecionado para a página do evento, onde constam todas as informações!17390599_270165403440688_1327815085610414834_o.jpg

Na sequência, seguirei para Poços de Caldas, dia 06/05, onde o livro também será apresentado e autografado durante um dos maiores e mais importantes festivais literários do país: o FLIPOÇOS (clique na imagem para visitar o site oficial e conhecer toda a programação, que, como de praxe está incrível):

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Nos vemos lá!

Abraços!

Pra não dizer que não falei do Natal

03

 

 

 

 

 

 

 

Abre a janela e contempla
O saco de lixo na esquina
Abre a porta ao meio dia
Sente a brisa de ressaca
Sente os olhos cansados
De tanta luz
Iluminação
Não sai: antes, fecha a porta
E vasculha teu lar
Contempla a mesa
A lavadora de louça
Que não te permitiu a gratidão
De esfregar os pratos um a um
Abre a porta do refrigerador
E contempla
Contempla como está cheio
Do vazio dos restos
Que partilharam a sós
Entre teu glorioso sangue
Comendo até a exaustão
A sós
Sente a brisa fria
Do calor do teu peito
Abre uma long neck
E quando fechares a porta
Sente que fechas teu mundo
Bebe, respira fundo
Sente o fígado acarinhado
Olha pra tua família
E bendiz teu Natal encantado.

-Bruno Félix

Meu escritório em 30 segundos

Pequeno tour pelo meu escritório, ao som de Tom Waits.

Recebi uma notícia tão boa, mas tão boa, que não estou me aguentando de felicidade! Espero que em breve eu possa trazer um comunicado oficial.

“There are things I’ve done I can’t erase
I wanna look in the mirror and see another face
I said never but I’m doing it again
I wanna walk away and start over again!”

Um dia para recordar

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Trinta anos atrás, formaram nesse local duas filas com as pequeninas crianças em primeira idade escolar: As meninas à esquerda e o os meninos à direita, todos apreensivos aguardando a chegada da professora. Tudo parecia muito grande e misterioso, afinal, ninguém sabia ao certo o que realmente aconteceria dentro da tal sala de aula. Pelo menos essa era a impressão de um dos meninos que estava entre os últimos da fila, bem ao lado de um canteiro com margaridas. A impaciência venceu o temor e a timidez do garoto que, com seu passo vacilante aproximou-se das margaridas e começou a despetalar uma flor, de maneira discreta e sem maldade, como um passatempo qualquer de criança.

Até que a professora chegou.

O menino parou assustado, temendo ser repreendido. Cláudia Dias, a jovem professora, apenas distribuiu sorrisos e cumprimentos, até tomar a dianteira da fila e conduzir os alunos ao primeiro dia de aula.

Dali em diante, todo o temor do menino se desvaneceu como as pétalas do jardim, que, de primavera em primavera se renovou. E de primavera em primavera, novas filas de alunos chegaram, novos mestres, novos tempos.

Retornei hoje ao colégio e, enquanto esperava o sinal para entrar na sala de aula, olhei pela janela e revi esse cenário, que fotografei. Revi o menino que esperava pela professora, um pouco assustado e ansioso, despetalando inocentemente uma das margaridas. Eu era aquele menino. De novo. Pois hoje eu não sabia ao certo o que aconteceria na sala de aula.

No sorriso que recebi de cada colaborador que me deu bom dia, pude ver o sorriso de tia Cláudia. Não há o que temer, pensei.

O sinal tocou.

Antes de ir conhecer meus alunos, lancei um último olhar sore a primeira sala de aula de minha vida e, para minha surpresa, no jardim tinha um canteiro com margaridas, no mesmo lugar.

Mentalmente, arranquei uma pétala “para dar sorte”, enxuguei minhas lágrimas e fui para a sala de aula.

 

 

Malabarismos

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O excesso explicado através do mínimo.

Por isso escolhi um Haicai para ilustrar o momento:

Há duas semanas mergulhei de cabeça no projeto literário mais gostoso que já fiz até hoje, motivo de minha ausência por aqui. Enquanto me divirto com o malabarismo de conciliar trabalho, família, música, faculdade e escrita (meu heterônimo tem exigido textos diário e pontuais), tive o insight desse belo Haicai que datilografei assim que o tempo me permitiu.

PS: dia quente e corrido aqui no sudoeste de Minas Gerais.

Abraços múltiplos,

Bruno Félix

Há um blues em cada esquina

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Existe um blues escondido em cada tapa
E nos olhos que se abrem de manhã sem ver um pão
Em cada dose que abrevia a vida ingrata
Existe um blues em cada esquina esperando uma canção

Está nos pés descalços que sangram na calçada
Está no corpo dolorido que não conhece um colchão
Está na fome que atravessa a madrugada
Existe um blues em cada esquina esperando uma canção

O jornal já não sente o que retrata
Enquanto algum poeta espera pela inspiração
Todos os dias a polícia morre e mata
Enquanto o blues de cada esquina não encontra uma canção

Está no corpo da menina explorada
Está na vida limitada pela falta de instrução
E tudo isso ecoa pela madrugada
Existe um blues em cada esquina esperando uma canção

O egoísmo e a intolerância matam
O poeta é um verme rastejando pelo chão
Num banquete os políticos se fartam
Eu ouço um blues em cada esquina, esperando uma canção