Colação de Grau

Tive um sonho estranho essa noite.
Eu fazia parte de uma pequena turma que receberia o diploma do curso de Letras. Poucos formandos, mas o público que assistia era imenso, todos chorando em desespero e gritando “não” a cada formando que se aproximava da mesa para receber o canudo.
Uma família discutia, o pai defendendo que o filho deveria repensar, ainda “dava tempo”, poderia colar em alguém importante, virar deputado, fazer a vida, mas não: estava ali, pronto a dar o passo mais burro da vida. A mãe, pobrezinha, chorava e dizia aos soluços que “não criou o filho para aquele destino… Noites em claro, esquentar mamadeira de madrugada, sofrer junto com as febres.. E a catapora? Quanto sofrimento, quanta dedicação, para nada! Tinha que ser doutor. Ficar rico.”
E a cada diploma entregue, a torcida urrava como se urra em um estádio de futebol quando o melhor batedor erra um pênalti.
Mas eu fui salvo.
Chegada a minha vez, o reitor me cravou os olhos e bravejou:
– O que você faz aqui, seu incompetente? – e se virou furioso para um professor de sintaxe:
– Esse imbecil erra regência até hoje. Que vá escrever mal assim no inferno, talvez lá ele mereça ser diplomado! – e rasgou meu diploma impiedosamente.
O público comemorou eufórico.
Fui carregado nos braços por todas aquelas famílias. Atiravam-me para o alto e me acolhiam calorosos em seus braços, parecia um final de campeonato com goleada, e o artilheiro do time era eu.

Pequena reflexão

Às vezes encaramos os pequenos acontecimentos da vida assim como os descrevi: pequenos. Ou pior: por serem pequenos, muitas vezes sequer os encaramos. Refleti hoje sobre isso ao chegar em meu trabalho e ouvir meu cd tocando… Lembrei-me de quando eu não tinha coragem de cantar. Do tempo que perdi até me “destravar” e tomar umas aulinhas de técnica vocal depois de adulto. Tudo isso porque a primeira vez que ouvi minha voz cantada em uma gravação, não gostei. Não me acostumava a ouvir minha própria voz. Interessante como uma coisa tão pequena pôde me afetar por tanto tempo. Mais interessante ainda é o ponto para onde levei minha pequena reflexão:

Acostumar-me a ouvir a própria voz cantada foi um pequeno acontecimento que jamais devo menosprezar: Se eu tivesse desistido ali, o que seria de mim hoje fazendo poesia e tendo que conviver diariamente com os gritos da própria alma?

There is a blues in every corner

WP_20160328_14_14_28_Pro

There is a Blues in Every Corner (Bruno Félix):
>>Clic here for the original Portuguese Version<<

Inside every slap there is a blues that comes along
And in the eyes that testify a hungry every day
Within each dose which shortens life anyway
There is a blues in every corner just waiting for a song

It is in bare feet that bleed on the sidewalk
It’s in the painful body without a bed to lie on
It’s the hunger that persists as a nighthawk
There is a blues in every corner just waiting for a song

The news shouts everything without a feeling
While some poet waits for a light to be strong
Every day, cops are dying and killing
While the blues from every corner does not find its song

It’s in the body of the exploited girl without rights
And with that lack of education that makes life goes wrong
And all that stuff keeps screaming through the night
There is a blues in every corner just waiting for a song

Greed and intolerance kills
The poet is a worm crawling on the ground
At a banquet politicians are filled
I hear a blues at every corner, waiting for a song

**Special thanks to Dani Tito for reviewing this adaptation!**

 

Máquina de escrever

Sem título

Ontem fiz uma mudança radical no meu pequeno espaço de criação. Digo assim porque não tenho um escritório em casa, apenas um canto da sala com uma velha mesa para máquinas de escrever que apoiava um notebook HP.

A mudança? Saiu o computador, entrou uma linda máquina de escrever Olivetti Lexikon 80 “novinha”.

Acima, uma estrofe datilografada com o referido aparato tecnológico.

As vantagens? Imediatismo. Certeza. Aqui não existe uma tecla “delete”. Não existe uma segunda chance. O papel branco está lá, pronto para receber os tipos que o poeta há de bater – e é bom que ele saiba o que quer bater. Senão é perda de tempo e de papel.

Além do mais, aqui nada se perde. Pensou, datilografou, está registrado. Não tem esse papo de “deseja salvar as alterações em…” – Não há opção.

A máquina, estimados leitores, é um espelho da vida. Simples assim.