Ponches et Circenses

Conforme prometido pela anfitriã
A recepção de Madame Zoraida
Já se prolongava até a manhã
Após o ludibrioso espetáculo do circo Malakov
Regalavam-se os convivas a ponche gelado
E Harvey Wallbanger de vodka Askov

Acomodado em uma chaise long
Desenhada por Le Corbusier
O arguto doutor Cheng Fong
Ajustando o pince-nez
Defendia o palhaço Kablong
Que tirara de cena de modo abrupto
O espetaculoso domador de pôneis
A contragosto do respeitável público

Madame Zoraida encolerizada,
Bradava ofensas ao tal saltimbanco:
– Pois eu digo que tudo não passou de um golpe!
– Golpe não foi! Visto que ambos são da mesma trupe!
– Golpe sujo e baixo! – Insistia a madame
– Não vejo o porquê! – fez o doutor
– Pois veja bem, que palhaço infame…
– Alto lá Zozô! Infame é dar show a domar alguns pôneis!

Enquanto os comensais acalorados
Tomavam partidos na capciosa contenda
Já altos de ponche e outros derivados
De lá da cidade, no fundo da tenda
O velho palhaço se demaquilava
E o domador abria um Velho Barreiro
Que há pouco fora buscar na venda
Ao sair mais cedo do picadeiro.

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Poema Público

corrupçãoOcioso público alvo
de um poema público
como um cão a roer um osso
alvo
não cristalino
mas alvo-leitoso

Leite.
qual o que mama na vaca pública
até se quedar
gordo
disforme
de fome
insaciável
qual o mal que lhe consome.

Vaca
é a falta de educação
é a falta que fez um tapa
quando foi a ocasião
é a pátria amarela
verde, anil
de voz presa à goela
é a puta que te pariu
sem culpa
sem anestesia
sem merecer a dor
que rasgou-lhe a púbis
doeu na alma,
na vagina,
doeu no cu.
pra você nascer,
crescer,
se alimentar
ter estudo
ter carreira
ter sucesso;
mas, por Deus!
faltaram tapas.
faltaram,
nem sei.
deve ter faltado muita coisa
até hoje falta.

Falta vergonha,
honra
–que honra?
a que talvez sua família jamais conheceu.
talvez mereçam parte da culpa.
criaram um monstro
que hoje, grande,
continua mamando
enquanto a mãe ganha
apelidos
infames,
imundos
poemas públicos.
chulos.
mas nunca tão chulos
que se equiparem ao asco
por você mesmo imputado
à sua profissão.
que outrora honrada
hoje carrega um estigma
uma marca, desgraça
feito o câncer da nação.
feito…
Não sei.

Não me cabe saber nada
me cabe o trabalho,
o Silêncio,
imposto.
imposto.
Impostos.
me cabe a televisão.
me cabe o voto, o veto
o verbo, esse não.
cabe a culpa de ser cidadão.
o medo.
a indecisão.
Me cabe ainda uma chance
de escrever um poema
e de continuar a dizer meu não.
Escrever um poema triste
Um poema cru
Um poema visceral
Público
Podre
Pobre
etc.
etc.
e tal.
_____________

Bruno Félix

Autor do Livro “O Busto de Adão e Outras Poesias”

Estado de emergência

Falta coragem

De fazer falta

Falta a fala

Falta.

Faltam pecados

Faltam padres

E pecadores

Faltam pescadores.

Falta água.

Falta teto.

Falta tudo.

Falta nada:

Sobra.

Sobram caras

Assombradas

Sombras

Taras.

Andam soltos velhos fantasmas

De um tempo em que não faltava

A boa e velha vergonha na cara.