Pela janela

ovni

A gente cresce
E aprende a ver o mundo
Pela janela de um trem
(As coisas vão ficando pequenas
Conforme nos afastamos)

Alguns poemas vão deixando de rimar
Algumas pessoas seguem ao nosso lado
Mas apenas algumas
Olhando a paisagem diminuir pela mesma janela
Dividindo o mesmo olhar
Vendo a maioria que fica no chão

Enquanto meu disco voador não chega
Habituei-me a ver
Essa grande maioria
Pela janela de um avião

O Silêncio da Espera

Em frente ao hospital
Um homem são espera em seu carro
Protegido do sol pelos vidros escuros
E pela barba bem aparada
Do clima, pelo ar condicionado
Do silencioso caos da cidade
Por um poema que Tom Waits canta
Em seu moderno sistema de som
No fundo ele agoniza
Enquanto escolhe
Uma caixa de vinhos por um aplicativo
Após ler as últimas notícias
Enquanto espera
Enquanto Armani o estrangula
Com a fina seda de sua gravata
E o homem continua esperando
Consciente de que tudo o que pode fazer
É esperar

Na praça ao lado
Ninguém sabe de sua dor
Nem mesmo o outro homem
Que acordou e viu um carro parado
Esperando
Enquanto ele mesmo espera por algum trocado
Protegido do sol
Pelo frio concreto do banco
E pela barba negra que nunca apara
Do clima, pelo caderno de notícias
Do caos da cidade, pelo silêncio da embriaguez total
Que lhe canta poemas em outras línguas
Enquanto a vida lhe estrangula
Com os trapos que lhe são doados
Enquanto ele espera se encontrar
Consciente de que todas as suas dores
Só hão de doer em si mesmo
Posto que ninguém o espera
E não há ninguém para ele esperar.

 

Caixas

Meu peito é um sótão empoeirado
Onde ainda entram alguns feixes de luz
E onde guardo meus prazeres bem separados
Em caixas organizadoras etiquetadas
Com data, hora e prazo de validade
(Há muita coisa vencida por aqui…)

Essa bagunça toda que me atrapalha
Principalmente nos dias de faxina
São minhas dores
Que ficam aqui espalhadas
Sem etiquetas, sem validade
Acumulando um pó que me ataca a rinite

Há dias em que fico cismado
E espano a poeira
Tento encaixotar a bagunça
Mas ela transborda das caixas
Ou as infla até que explodam
Fazendo um estrondo tão grande
Que chega a derrubar algumas
Prateleiras de caixas etiquetadas

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Poema Classificado nº29

Essa semana saiu no jornal o #PoemaClassificado nº29. Série despretensiosa, mas que tem saído com certa regularidade, o que tem me dado bastante gosto: Além de tais poemas serem impressos no jornal local, já chegaram a várias cidades do Brasil estampados em postes, através de amigos que resolveram #EspalharPoesia por aí!

Por isso criei dois álbuns na página do Facebook (cliquem nos poemas abaixo para serem redirecionados).

Espero que gostem!

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Pra não dizer que não falei do Natal

03

 

 

 

 

 

 

 

Abre a janela e contempla
O saco de lixo na esquina
Abre a porta ao meio dia
Sente a brisa de ressaca
Sente os olhos cansados
De tanta luz
Iluminação
Não sai: antes, fecha a porta
E vasculha teu lar
Contempla a mesa
A lavadora de louça
Que não te permitiu a gratidão
De esfregar os pratos um a um
Abre a porta do refrigerador
E contempla
Contempla como está cheio
Do vazio dos restos
Que partilharam a sós
Entre teu glorioso sangue
Comendo até a exaustão
A sós
Sente a brisa fria
Do calor do teu peito
Abre uma long neck
E quando fechares a porta
Sente que fechas teu mundo
Bebe, respira fundo
Sente o fígado acarinhado
Olha pra tua família
E bendiz teu Natal encantado.

-Bruno Félix