Poda

Era uma roseira diferente:
Seus espinhos brotavam para dentro
Ninguém os via
Ninguém os tocava
Ninguém os sabia
E a roseira, na tentativa de gritar
Abria rosas indescritíveis
Em noites de lua, sonhava podas
Todas bem rente ao chão
Mas ninguém a podava
Abriram espaço em seu jardim
Para que todos a contemplassem
Conheceu a solidão
Seus espinhos cresciam
A dilaceravam por dentro
A cada nova estação
E ela gritava dezenas de rosas
Uma lágrima em cada botão
Quando afagavam seu caule liso
Ela se contorcia de dor
Sentia os espinhos cravando
Queixava-se abrindo outra flor
Um dia, os espinhos já grandes
Formaram nódulos pelo seu corpo
Uma espécie de tumor
Cansada, não abriu flores
Podaram-na rente ao chão
E ela conheceu um pouco
Daquilo que é não ter dor
Quis mostrar uma folha ao sol
Mas a coragem faltou
Recusou a água
Recusou o adubo
Rejeitou a terra
A mesma terra que a criou
Ali desapareceu
E todo o jardim se abriu em flor

Micro ensaios I: da escrita

Micro ensaios:

I – Da escrita

É mister o equilíbrio
Entre o doido e o douto
Pra que se crie um novo Dosto
Buscar a perfeição
Até que se perca a feição
Afeiçoar-se à escrita
Escravo, síndrome de Estocolmo
Estocando a duras penas
É preciso vida e erudição
Mas cuidado:
O excesso de rudimentos
Pode torná-lo rude.

Leonid_Pasternak_001

Imagem: Leonid Pasternak – The passion of creation, óleo sobre tela.

Pela janela

ovni

A gente cresce
E aprende a ver o mundo
Pela janela de um trem
(As coisas vão ficando pequenas
Conforme nos afastamos)

Alguns poemas vão deixando de rimar
Algumas pessoas seguem ao nosso lado
Mas apenas algumas
Olhando a paisagem diminuir pela mesma janela
Dividindo o mesmo olhar
Vendo a maioria que fica no chão

Enquanto meu disco voador não chega
Habituei-me a ver
Essa grande maioria
Pela janela de um avião

O Gato Pardo

27c99ac3f6922fe14865e1d2033f3e88No meu escritório mora um gato pardo
Que só faz dormir e comer
E quando é madrugada
E não há mais o que fazer
Esse gato sai
Em busca do rato mais gordo
E mais raro:
O rato envenenado
Que corre desesperado em busca de água
Enquanto o veneno lhe corrói as tripas.
Presa fácil
E o gato lhe come pelas beiradas
Deixando de sobremesa a gelatina amarga de suas entranhas
Estranho hábito do gato
Vai se deliciando naquela acidez fétida
Até começar a sentir dores abdominais
Então salta no muro, cai, rola, ronrona e rosna
Ele grita e geme
Esfrega a cara no chão
E passa a noite a ver estrelas
Estranhas, entranhas, devaneios
Entrelinhas.
Depois volta de manhã cambaleante
Ele sabe que há ração em algum lugar
Ele bebe água, bebe leite
Dorme.
Finge que nada aconteceu
Quando acorda, procura decidir se vale a pena
Sustentar seu terrível vício
Afinal de contas, levou uma vida de exercício
Para que seu organismo se adaptasse

Eu coloco papel na máquina
Me sirvo de rum
Olho para o gato
Ele dorme, mas me olha com um canto de olho
Sua língua descansa fora da boca
Deve estar morto – penso
E organizo os sons de um haikai
O gato acorda, levanta, ronrona
Está magro, machucado
Feito o poema que atiro no lixo, amassado
O gato se lembra de comer a ração toda
À noite ele há de lembrar de não comer o rato todo
– Pode ser fatal.
Mas mesmo assim ele sai.
Ele não sente cheiro de ratos
Mas mesmo assim ele sai.
Nem tudo o que escrevo eu guardo
Mas mesmo assim eu sou pai
Mesmo quando esqueço
O significado de cada metáfora
Também não tomo a garrafa toda
– Um poema pode ser fatal.

Jardinagem

1710922

Jardim é bom.
Jardim é lindo.
Traz paz.
Enfeita.
Perfuma.
Colore.
Quisera eu que todos pudessem ter um belo jardim.

Mas, assim:
Para se ter um belo jardim,
é mister trabalhar um bocado:
Molhar as folhas com cuidado,
pois planta gosta de carinho também.
Há que saber enfrentar umas pragas
e adubar o solo quando convém.
Podar na medida certa,
e só quando a lua disser amém.
Senão o jardim não floresce.
A rama nova não cresce.
A paz esperada não vem.
Lidar com ervas daninhas
vira rotina também.
Pois jardim, meu amigo, é vida.
E a vida, ah a vida…
não tá fácil pra ninguém.