“Cuéntame un cuento”

Muito feliz! Saiu o resultado do I Concurso de relato breve do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, Espanha, que recebeu cerca de 600 contos de escritores de dez países diferentes: O meu conto “O mandado de prisão” foi o primeiro finalista! Agora é só aguardar a publicação dos textos para partilhar aqui com vocês!

Clique na imagem abaixo para acessar o resultado do concurso no site do Centro de Estudios Brasileños:

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Lançamentos agendados!

A Menina e o Equilibrista, meu segundo livro, já tem as datas de lançamento definidas: Dia 19/04, no Unico Lounge Bar em São Sebastião do Paraíso/MG, o lugar mais aconchegante da cidade, ideal para falarmos de coisas amenas como literatura e cheiro de livro novo!

Clicando na imagem abaixo, você será redirecionado para a página do evento, onde constam todas as informações!17390599_270165403440688_1327815085610414834_o.jpg

Na sequência, seguirei para Poços de Caldas, dia 06/05, onde o livro também será apresentado e autografado durante um dos maiores e mais importantes festivais literários do país: o FLIPOÇOS (clique na imagem para visitar o site oficial e conhecer toda a programação, que, como de praxe está incrível):

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Nos vemos lá!

Abraços!

O Gato Pardo

27c99ac3f6922fe14865e1d2033f3e88No meu escritório mora um gato pardo
Que só faz dormir e comer
E quando é madrugada
E não há mais o que fazer
Esse gato sai
Em busca do rato mais gordo
E mais raro:
O rato envenenado
Que corre desesperado em busca de água
Enquanto o veneno lhe corrói as tripas.
Presa fácil
E o gato lhe come pelas beiradas
Deixando de sobremesa a gelatina amarga de suas entranhas
Estranho hábito do gato
Vai se deliciando naquela acidez fétida
Até começar a sentir dores abdominais
Então salta no muro, cai, rola, ronrona e rosna
Ele grita e geme
Esfrega a cara no chão
E passa a noite a ver estrelas
Estranhas, entranhas, devaneios
Entrelinhas.
Depois volta de manhã cambaleante
Ele sabe que há ração em algum lugar
Ele bebe água, bebe leite
Dorme.
Finge que nada aconteceu
Quando acorda, procura decidir se vale a pena
Sustentar seu terrível vício
Afinal de contas, levou uma vida de exercício
Para que seu organismo se adaptasse

Eu coloco papel na máquina
Me sirvo de rum
Olho para o gato
Ele dorme, mas me olha com um canto de olho
Sua língua descansa fora da boca
Deve estar morto – penso
E organizo os sons de um haikai
O gato acorda, levanta, ronrona
Está magro, machucado
Feito o poema que atiro no lixo, amassado
O gato se lembra de comer a ração toda
À noite ele há de lembrar de não comer o rato todo
– Pode ser fatal.
Mas mesmo assim ele sai.
Ele não sente cheiro de ratos
Mas mesmo assim ele sai.
Nem tudo o que escrevo eu guardo
Mas mesmo assim eu sou pai
Mesmo quando me esqueço
O significado de cada metáfora
Também não tomo a garrafa toda
– Um poema pode ser fatal.

O Mestre e o Gafanhoto (a parábola das merdas)

Certa feita, um curioso viajante
Tendo notícia da fama do erudito Lokprakash¹
-Cujo renome já se espraiava
Desde o sopé do Himalaia
Aos confins de Bangladesh-
Foi ter com o ancião.

Pouco antes do encontro
Quis a sorte do viajor
Foder Feder com a ocasião
E o lustroso sapato Dior
Pisou luzidia merda no chão
Impregnando-se em raro fedor

Ora, o elegante visitante
Quedou-se triste e vexado
Pois caprichara na toalete
Com perfume almiscarado
Mas vendo chegar o indiano
Gaguejou embaraçado:

Oh, sa-sábio mestre Vatsala
Perdoe-me os modos
Digo, Sua Santidade,
Lokprakash Vatsala
Não quero causar incômodo
Mas quis a eventualidade…

Disse isso tudo o forasteiro
Mostrando o próprio sapato
E o descalço guru, bem ligeiro
Meteu-lhe na cara um sopapo:
– Ingrato! Não vês que é auspicioso
Pisar assim, em um grande merdeiro?

Pois saiba de agora em diante
Que só não pisa na merda aquele
Que anda sempre cabisbaixo
– Mas mestre. – Retorquiu o visitante
Não sei ao certo se nisso me encaixo
Veja bem, que a bosta era grande!

– Quanto maior a bosta, maior a sorte.
Pois o homem que não a enxerga
Certamente está de cabeça erguida:
Possui metas, é sábio e forte
E não se envergonha da vida vivida.
Por isso digo: mais merda, mais sorte.

– Então sendo assim… E se fosse um cocô de vaca?
– Vaca sagrada, sorte multiplicada.
– Se fosse então, cocô de elefante?
– Cocô muito grande, sorte gigante.
– Entendi. Quanto mais cabeça erguida…
– Sim. Desde que seja o seu natural.

– Mas mestre, por favor me diga:
E se por acaso, um pombo acertar
Seus dejetos em minha cabeça?
– É sorte! – respondeu com veemência.
Apesar de que talvez seja
Incômodo de se limpar.

– Ok. Mas há erro na teoria
Pois se há auspício na altivez
E quanto mais alta a cabeça, melhor,
Talvez um pombo acertaria
Não a cabeça, mas os olhos do freguês!
E não vejo sorte em ter os olhos cagados.

Lokprakash cerrou os olhos e, após um longo suspiro, concluiu:
– Aprenda de uma vez, pequeno gafanhoto,
Que o sábio mantém a cabeça erguida
Mas nunca de forma exagerada
Pois sabe que assim age o tolo
Que de tanto a erguer não enxerga a estrada.

                               ***

¹Lokprakash Vatsala é um personagem que aparece em 4 poemas do livro “O Busto de Adão e Outras Poesias” (págs 31/33 e 49/54). Dado à incomensurável sabedoria e carisma do ancião indiano, achei justo dar vazão a novos poemas onde ele possa doutrinar.

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Lokprakash Vatsala em “O Mestre e o Peregrino” (O Busto de Adão e Outras Poesias, pág. 40) Ilustração de Arthur F. Pádua.

 

 

Haikai Novamente

Não resisti. Não sei se foi por reler Paulo Leminski essa semana, ou se foi pelas últimas postagens minhas sobre Haikai, me flagrei hoje “namorando” uma das páginas que mais gosto de meu próprio livro.

Deu até vontade de propor aqui um jogo, de cada um relatar a própria interpretação desses dois Haikais que dialogam não só com os respectivos títulos, mas também com as ilustrações de Arthur Pádua, que têm o poder de levar o leitor por um caminho que o poeta talvez não tenha pretendido. Alguém arrisca um palpite? Depois eu conto o que eu senti (e pretendi) ao escrever cada verso.

Ah, quem quiser um exemplar do livro, pode clicar AQUI.

Abraços poéticos,

Bruno Félix

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Por que gosto de Haikais

A delicadeza da construção, o minimalismo silábico que precisa fundamentalmente expressar um estado natural à maneira de uma pintura ou fotografia. São características do Haikai que me encantam, como se desafiassem o poeta ocidental a um duelo samurai ou a um ritual do chá.

Ontem escrevi dois Haikais que, muito embora desafiem o propósito original da arte (o retrato instantâneo da natureza), trazem um turbilhão (a meu ver) de significância.

No primeiro, a desconstrução da palavra no segundo verso, leva a uma reconstrução em duplo significado no último:

#Haicai ou #haikai? #Dor ou #doação? Perder ou perdoar? #poema #minimalismo

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Já no segundo Haikai, a imagem acústica formada em nosso cérebro pelo emprego da palavra “sonho”, é reconstruída nos versos seguintes.

#Haikai novamente. Meio "blue": sobre #sonhos e cimento. #poesia #maquinadeescrever #poema

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Em meu livro de poesias (LINK), há um pequeno capítulo dedicado à arte do Haikai.

Espero que tenham gostado o tanto quanto eu (pai coruja)!

Abraços,

Bruno Félix

 

Malabarismos

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O excesso explicado através do mínimo.

Por isso escolhi um Haicai para ilustrar o momento:

Há duas semanas mergulhei de cabeça no projeto literário mais gostoso que já fiz até hoje, motivo de minha ausência por aqui. Enquanto me divirto com o malabarismo de conciliar trabalho, família, música, faculdade e escrita (meu heterônimo tem exigido textos diário e pontuais), tive o insight desse belo Haicai que datilografei assim que o tempo me permitiu.

PS: dia quente e corrido aqui no sudoeste de Minas Gerais.

Abraços múltiplos,

Bruno Félix