Colação de Grau

Tive um sonho estranho essa noite.
Eu fazia parte de uma pequena turma que receberia o diploma do curso de Letras. Poucos formandos, mas o público que assistia era imenso, todos chorando em desespero e gritando “não” a cada formando que se aproximava da mesa para receber o canudo.
Uma família discutia, o pai defendendo que o filho deveria repensar, ainda “dava tempo”, poderia colar em alguém importante, virar deputado, fazer a vida, mas não: estava ali, pronto a dar o passo mais burro da vida. A mãe, pobrezinha, chorava e dizia aos soluços que “não criou o filho para aquele destino… Noites em claro, esquentar mamadeira de madrugada, sofrer junto com as febres.. E a catapora? Quanto sofrimento, quanta dedicação, para nada! Tinha que ser doutor. Ficar rico.”
E a cada diploma entregue, a torcida urrava como se urra em um estádio de futebol quando o melhor batedor erra um pênalti.
Mas eu fui salvo.
Chegada a minha vez, o reitor me cravou os olhos e bravejou:
– O que você faz aqui, seu incompetente? – e se virou furioso para um professor de sintaxe:
– Esse imbecil erra regência até hoje. Que vá escrever mal assim no inferno, talvez lá ele mereça ser diplomado! – e rasgou meu diploma impiedosamente.
O público comemorou eufórico.
Fui carregado nos braços por todas aquelas famílias. Atiravam-me para o alto e me acolhiam calorosos em seus braços, parecia um final de campeonato com goleada, e o artilheiro do time era eu.

Um dia para recordar

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Trinta anos atrás, formaram nesse local duas filas com as pequeninas crianças em primeira idade escolar: As meninas à esquerda e o os meninos à direita, todos apreensivos aguardando a chegada da professora. Tudo parecia muito grande e misterioso, afinal, ninguém sabia ao certo o que realmente aconteceria dentro da tal sala de aula. Pelo menos essa era a impressão de um dos meninos que estava entre os últimos da fila, bem ao lado de um canteiro com margaridas. A impaciência venceu o temor e a timidez do garoto que, com seu passo vacilante aproximou-se das margaridas e começou a despetalar uma flor, de maneira discreta e sem maldade, como um passatempo qualquer de criança.

Até que a professora chegou.

O menino parou assustado, temendo ser repreendido. Cláudia Dias, a jovem professora, apenas distribuiu sorrisos e cumprimentos, até tomar a dianteira da fila e conduzir os alunos ao primeiro dia de aula.

Dali em diante, todo o temor do menino se desvaneceu como as pétalas do jardim, que, de primavera em primavera se renovou. E de primavera em primavera, novas filas de alunos chegaram, novos mestres, novos tempos.

Retornei hoje ao colégio e, enquanto esperava o sinal para entrar na sala de aula, olhei pela janela e revi esse cenário, que fotografei. Revi o menino que esperava pela professora, um pouco assustado e ansioso, despetalando inocentemente uma das margaridas. Eu era aquele menino. De novo. Pois hoje eu não sabia ao certo o que aconteceria na sala de aula.

No sorriso que recebi de cada colaborador que me deu bom dia, pude ver o sorriso de tia Cláudia. Não há o que temer, pensei.

O sinal tocou.

Antes de ir conhecer meus alunos, lancei um último olhar sore a primeira sala de aula de minha vida e, para minha surpresa, no jardim tinha um canteiro com margaridas, no mesmo lugar.

Mentalmente, arranquei uma pétala “para dar sorte”, enxuguei minhas lágrimas e fui para a sala de aula.

 

 

Nota do autor

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Não sei exatamente como foi que a história do equilibrista e da garotinha Angelina veio parar na minha cabeça, mas lembro que foi em uma manhã morna de outubro e que acordei com a voz de uma criança gritando:

– Cuidado! O senhor vai acabar caindo!

Deve ter sido um sonho, pensei. Virei-me de lado e constatei que Nina ainda dormia pesado, a luz fraca do abajur revelava o berço onde Joana repousava tranquila, às vésperas de completar seu décimo mês de vida. Fechei os olhos na tentativa de recuperar o sono e, quem sabe, também o sonho que naquele instante vinha em lampejos desconexos em minha cabeça.

Sob um viaduto alto, um fluxo rápido de automóveis produzia um intenso ruído que me fazia revirar na cama. Eu estava na beirada, pronto para me jogar. Olhei ao redor mais uma vez, não havia nenhum carro ou pedestre circulando sobre o pontilhão. Mas por que eu me lançaria para tal destino? Havia uma forte angústia, uma falta de ar, uma tontura.

– Cuidado! – a mesma voz chamou minha atenção, e acordei do primeiro sonho.

Angelina era uma negrinha de sete anos de idade que adorava Milk-shake de morango e cantigas de roda. Mas como eu sabia dessas coisas? De repente me dei conta de que estava sonhando, o que é muito perigoso, pois quando se toma a consciência de que tudo não passa de um sonho, a linha tênue que separa os dois universos está prestes a ser rompida de supetão. Por outro lado, é como se ganhássemos superpoderes, pois descobrimos que as leis da física não são tão importantes assim.

Foi assim que eu segurei na mão daquela garotinha e me lancei em uma jornada sem volta, anotando todas as pequenas aventuras e descobertas em um pequeno caderno branco, ou cor-de-rosa, não me lembro. A verdade é que quando acordamos, os detalhes vão se desvanecendo em degradê, na velocidade do nascer do sol. Por isso, lembro-me de ter levantado antes da alvorada e de sair do quarto na ponta dos pés, a fim de preservar o sonho mágico de Joana e começar a escrever a história de Antônio e Angelina, antes que o sol clareasse minha mente a ponto de me despertar do mundo real.

 

A culpa é das estrelas?

Em um ponto, sou meio Gil: “Até que nem tanto esotérico assim…”
Porém, às vezes sinto que sou um raro, ou não tão raro exemplar da espécie, que reafirma a possibilidade dos astros interferirem cá em nossa vida.
A corda quebra no meio do palco e não tem uma de reserva, tiro de letra.
Tendinite, ou essa dor do joelho que apareceu e gostou de ficar.
Pode ser, que seja, tratemos disso tudo.
É uma gastrite, ok. A vida tem dessas coisas, pode ter sido os tequila (afinal, aqui se faz, aqui se paga). Tiro de letra.

Ah, seu mundo virou de ponta cabeça, as pessoas que você sempre amou te enganaram. Tudo bem, superarei.
O problema é que, dentre todas rasteiras que a vida pôde me aplicar, creio que a mais perversa aconteceu em 1983:
Nascer pisciano foi sacanagem.
Quando está feliz, chega a se questionar. Ou comemora demais, o que é sempre um erro.
Às vezes, quando está mal, logo quer meter um chumbo nos miolos. Mas não. Você é de peixes. Magoaria alguns. Faria sujeira. Afinal, quem vai querer recolher seus miolos?

Tiro de letra aqueles problemas elencados acima? Claro. É a vida, como cantou Frank. Mas aqui dentro, nesse mundo que só o pisciano conhece… Ah, eu morro de março a março.
Enfrentaria uma eternidade de altos e baixos se fosse, sei lá, de Sagitário.
Mas, por Deus! Tinha que ser de peixes?
Nem nos Cavaleiros do Zodíaco isso prestou, até pra bater nos outros o cara da última casa usava rosas.
De agora em diante, quando eu ver uma grávida querendo parir alguém entre 20 de Fevereiro e 20 de Março, vou gritar pro neném: “Aguenta mais uns dias aí dentro! Segura a onda, porque Áries é mais legal até em anime japonês!”

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Máquina de escrever

Sem título

Ontem fiz uma mudança radical no meu pequeno espaço de criação. Digo assim porque não tenho um escritório em casa, apenas um canto da sala com uma velha mesa para máquinas de escrever que apoiava um notebook HP.

A mudança? Saiu o computador, entrou uma linda máquina de escrever Olivetti Lexikon 80 “novinha”.

Acima, uma estrofe datilografada com o referido aparato tecnológico.

As vantagens? Imediatismo. Certeza. Aqui não existe uma tecla “delete”. Não existe uma segunda chance. O papel branco está lá, pronto para receber os tipos que o poeta há de bater – e é bom que ele saiba o que quer bater. Senão é perda de tempo e de papel.

Além do mais, aqui nada se perde. Pensou, datilografou, está registrado. Não tem esse papo de “deseja salvar as alterações em…” – Não há opção.

A máquina, estimados leitores, é um espelho da vida. Simples assim.