Ponches et Circenses

Conforme prometido pela anfitriã
A recepção de Madame Zoraida
Já se prolongava até a manhã
Após o ludibrioso espetáculo do circo Malakov
Regalavam-se os convivas a ponche gelado
E Harvey Wallbanger de vodka Askov

Acomodado em uma chaise long
Desenhada por Le Corbusier
O arguto doutor Cheng Fong
Ajustando o pince-nez
Defendia o palhaço Kablong
Que tirara de cena de modo abrupto
O espetaculoso domador de pôneis
A contragosto do respeitável público

Madame Zoraida encolerizada,
Bradava ofensas ao tal saltimbanco:
– Pois eu digo que tudo não passou de um golpe!
– Golpe não foi! Visto que ambos são da mesma trupe!
– Golpe sujo e baixo! – Insistia a madame
– Não vejo o porquê! – fez o doutor
– Pois veja bem, que palhaço infame…
– Alto lá Zozô! Infame é dar show a domar alguns pôneis!

Enquanto os comensais acalorados
Tomavam partidos na capciosa contenda
Já altos de ponche e outros derivados
De lá da cidade, no fundo da tenda
O velho palhaço se demaquilava
E o domador abria um Velho Barreiro
Que há pouco fora buscar na venda
Ao sair mais cedo do picadeiro.

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Há um blues em cada esquina

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Existe um blues escondido em cada tapa
E nos olhos que se abrem de manhã sem ver um pão
Em cada dose que abrevia a vida ingrata
Existe um blues em cada esquina esperando uma canção

Está nos pés descalços que sangram na calçada
Está no corpo dolorido que não conhece um colchão
Está na fome que atravessa a madrugada
Existe um blues em cada esquina esperando uma canção

O jornal já não sente o que retrata
Enquanto algum poeta espera pela inspiração
Todos os dias a polícia morre e mata
Enquanto o blues de cada esquina não encontra uma canção

Está no corpo da menina explorada
Está na vida limitada pela falta de instrução
E tudo isso ecoa pela madrugada
Existe um blues em cada esquina esperando uma canção

O egoísmo e a intolerância matam
O poeta é um verme rastejando pelo chão
Num banquete os políticos se fartam
Eu ouço um blues em cada esquina, esperando uma canção


 

 

Poema Público

corrupçãoOcioso público alvo
de um poema público
como um cão a roer um osso
alvo
não cristalino
mas alvo-leitoso

Leite.
qual o que mama na vaca pública
até se quedar
gordo
disforme
de fome
insaciável
qual o mal que lhe consome.

Vaca
é a falta de educação
é a falta que fez um tapa
quando foi a ocasião
é a pátria amarela
verde, anil
de voz presa à goela
é a puta que te pariu
sem culpa
sem anestesia
sem merecer a dor
que rasgou-lhe a púbis
doeu na alma,
na vagina,
doeu no cu.
pra você nascer,
crescer,
se alimentar
ter estudo
ter carreira
ter sucesso;
mas, por Deus!
faltaram tapas.
faltaram,
nem sei.
deve ter faltado muita coisa
até hoje falta.

Falta vergonha,
honra
–que honra?
a que talvez sua família jamais conheceu.
talvez mereçam parte da culpa.
criaram um monstro
que hoje, grande,
continua mamando
enquanto a mãe ganha
apelidos
infames,
imundos
poemas públicos.
chulos.
mas nunca tão chulos
que se equiparem ao asco
por você mesmo imputado
à sua profissão.
que outrora honrada
hoje carrega um estigma
uma marca, desgraça
feito o câncer da nação.
feito…
Não sei.

Não me cabe saber nada
me cabe o trabalho,
o Silêncio,
imposto.
imposto.
Impostos.
me cabe a televisão.
me cabe o voto, o veto
o verbo, esse não.
cabe a culpa de ser cidadão.
o medo.
a indecisão.
Me cabe ainda uma chance
de escrever um poema
e de continuar a dizer meu não.
Escrever um poema triste
Um poema cru
Um poema visceral
Público
Podre
Pobre
etc.
etc.
e tal.
_____________

Bruno Félix

Autor do Livro “O Busto de Adão e Outras Poesias”

Estado de emergência

Falta coragem

De fazer falta

Falta a fala

Falta.

Faltam pecados

Faltam padres

E pecadores

Faltam pescadores.

Falta água.

Falta teto.

Falta tudo.

Falta nada:

Sobra.

Sobram caras

Assombradas

Sombras

Taras.

Andam soltos velhos fantasmas

De um tempo em que não faltava

A boa e velha vergonha na cara.