“Cuéntame un cuento”

Muito feliz! Saiu o resultado do I Concurso de relato breve do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, Espanha, que recebeu cerca de 600 contos de escritores de dez países diferentes: O meu conto “O mandado de prisão” foi o primeiro finalista! Agora é só aguardar a publicação dos textos para partilhar aqui com vocês!

Clique na imagem abaixo para acessar o resultado do concurso no site do Centro de Estudios Brasileños:

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Colação de Grau

Tive um sonho estranho essa noite.
Eu fazia parte de uma pequena turma que receberia o diploma do curso de Letras. Poucos formandos, mas o público que assistia era imenso, todos chorando em desespero e gritando “não” a cada formando que se aproximava da mesa para receber o canudo.
Uma família discutia, o pai defendendo que o filho deveria repensar, ainda “dava tempo”, poderia colar em alguém importante, virar deputado, fazer a vida, mas não: estava ali, pronto a dar o passo mais burro da vida. A mãe, pobrezinha, chorava e dizia aos soluços que “não criou o filho para aquele destino… Noites em claro, esquentar mamadeira de madrugada, sofrer junto com as febres.. E a catapora? Quanto sofrimento, quanta dedicação, para nada! Tinha que ser doutor. Ficar rico.”
E a cada diploma entregue, a torcida urrava como se urra em um estádio de futebol quando o melhor batedor erra um pênalti.
Mas eu fui salvo.
Chegada a minha vez, o reitor me cravou os olhos e bravejou:
– O que você faz aqui, seu incompetente? – e se virou furioso para um professor de sintaxe:
– Esse imbecil erra regência até hoje. Que vá escrever mal assim no inferno, talvez lá ele mereça ser diplomado! – e rasgou meu diploma impiedosamente.
O público comemorou eufórico.
Fui carregado nos braços por todas aquelas famílias. Atiravam-me para o alto e me acolhiam calorosos em seus braços, parecia um final de campeonato com goleada, e o artilheiro do time era eu.

Nota do autor

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Não sei exatamente como foi que a história do equilibrista e da garotinha Angelina veio parar na minha cabeça, mas lembro que foi em uma manhã morna de outubro e que acordei com a voz de uma criança gritando:

– Cuidado! O senhor vai acabar caindo!

Deve ter sido um sonho, pensei. Virei-me de lado e constatei que Nina ainda dormia pesado, a luz fraca do abajur revelava o berço onde Joana repousava tranquila, às vésperas de completar seu décimo mês de vida. Fechei os olhos na tentativa de recuperar o sono e, quem sabe, também o sonho que naquele instante vinha em lampejos desconexos em minha cabeça.

Sob um viaduto alto, um fluxo rápido de automóveis produzia um intenso ruído que me fazia revirar na cama. Eu estava na beirada, pronto para me jogar. Olhei ao redor mais uma vez, não havia nenhum carro ou pedestre circulando sobre o pontilhão. Mas por que eu me lançaria para tal destino? Havia uma forte angústia, uma falta de ar, uma tontura.

– Cuidado! – a mesma voz chamou minha atenção, e acordei do primeiro sonho.

Angelina era uma negrinha de sete anos de idade que adorava Milk-shake de morango e cantigas de roda. Mas como eu sabia dessas coisas? De repente me dei conta de que estava sonhando, o que é muito perigoso, pois quando se toma a consciência de que tudo não passa de um sonho, a linha tênue que separa os dois universos está prestes a ser rompida de supetão. Por outro lado, é como se ganhássemos superpoderes, pois descobrimos que as leis da física não são tão importantes assim.

Foi assim que eu segurei na mão daquela garotinha e me lancei em uma jornada sem volta, anotando todas as pequenas aventuras e descobertas em um pequeno caderno branco, ou cor-de-rosa, não me lembro. A verdade é que quando acordamos, os detalhes vão se desvanecendo em degradê, na velocidade do nascer do sol. Por isso, lembro-me de ter levantado antes da alvorada e de sair do quarto na ponta dos pés, a fim de preservar o sonho mágico de Joana e começar a escrever a história de Antônio e Angelina, antes que o sol clareasse minha mente a ponto de me despertar do mundo real.

 

Máquina de escrever

Sem título

Ontem fiz uma mudança radical no meu pequeno espaço de criação. Digo assim porque não tenho um escritório em casa, apenas um canto da sala com uma velha mesa para máquinas de escrever que apoiava um notebook HP.

A mudança? Saiu o computador, entrou uma linda máquina de escrever Olivetti Lexikon 80 “novinha”.

Acima, uma estrofe datilografada com o referido aparato tecnológico.

As vantagens? Imediatismo. Certeza. Aqui não existe uma tecla “delete”. Não existe uma segunda chance. O papel branco está lá, pronto para receber os tipos que o poeta há de bater – e é bom que ele saiba o que quer bater. Senão é perda de tempo e de papel.

Além do mais, aqui nada se perde. Pensou, datilografou, está registrado. Não tem esse papo de “deseja salvar as alterações em…” – Não há opção.

A máquina, estimados leitores, é um espelho da vida. Simples assim.