Colação de Grau

Tive um sonho estranho essa noite.
Eu fazia parte de uma pequena turma que receberia o diploma do curso de Letras. Poucos formandos, mas o público que assistia era imenso, todos chorando em desespero e gritando “não” a cada formando que se aproximava da mesa para receber o canudo.
Uma família discutia, o pai defendendo que o filho deveria repensar, ainda “dava tempo”, poderia colar em alguém importante, virar deputado, fazer a vida, mas não: estava ali, pronto a dar o passo mais burro da vida. A mãe, pobrezinha, chorava e dizia aos soluços que “não criou o filho para aquele destino… Noites em claro, esquentar mamadeira de madrugada, sofrer junto com as febres.. E a catapora? Quanto sofrimento, quanta dedicação, para nada! Tinha que ser doutor. Ficar rico.”
E a cada diploma entregue, a torcida urrava como se urra em um estádio de futebol quando o melhor batedor erra um pênalti.
Mas eu fui salvo.
Chegada a minha vez, o reitor me cravou os olhos e bravejou:
– O que você faz aqui, seu incompetente? – e se virou furioso para um professor de sintaxe:
– Esse imbecil erra regência até hoje. Que vá escrever mal assim no inferno, talvez lá ele mereça ser diplomado! – e rasgou meu diploma impiedosamente.
O público comemorou eufórico.
Fui carregado nos braços por todas aquelas famílias. Atiravam-me para o alto e me acolhiam calorosos em seus braços, parecia um final de campeonato com goleada, e o artilheiro do time era eu.

Poema Classificado nº29

Essa semana saiu no jornal o #PoemaClassificado nº29. Série despretensiosa, mas que tem saído com certa regularidade, o que tem me dado bastante gosto: Além de tais poemas serem impressos no jornal local, já chegaram a várias cidades do Brasil estampados em postes, através de amigos que resolveram #EspalharPoesia por aí!

Por isso criei dois álbuns na página do Facebook (cliquem nos poemas abaixo para serem redirecionados).

Espero que gostem!

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Pra não dizer que não falei do Natal

03

 

 

 

 

 

 

 

Abre a janela e contempla
O saco de lixo na esquina
Abre a porta ao meio dia
Sente a brisa de ressaca
Sente os olhos cansados
De tanta luz
Iluminação
Não sai: antes, fecha a porta
E vasculha teu lar
Contempla a mesa
A lavadora de louça
Que não te permitiu a gratidão
De esfregar os pratos um a um
Abre a porta do refrigerador
E contempla
Contempla como está cheio
Do vazio dos restos
Que partilharam a sós
Entre teu glorioso sangue
Comendo até a exaustão
A sós
Sente a brisa fria
Do calor do teu peito
Abre uma long neck
E quando fechares a porta
Sente que fechas teu mundo
Bebe, respira fundo
Sente o fígado acarinhado
Olha pra tua família
E bendiz teu Natal encantado.

-Bruno Félix

Blues para Ferreira Gullar

Triste.
Impossível traduzir o tamanho dessa perda.
Ficamos com a parte permanente dele.
Fica a vaga da cadeira 37.
E mais um ciclo findo.
Ficam poemas lindos, poemas sujos, poemas limpos.
Fica uma dor maior que a de um rubi cravado no umbigo.
Descanse em paz, poeta lido, poeta amigo,
Nesse ciclo não deu tempo,
Mas eu sempre quis ter te conhecido.

“Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?”

 

Meu escritório em 30 segundos

Pequeno tour pelo meu escritório, ao som de Tom Waits.

Recebi uma notícia tão boa, mas tão boa, que não estou me aguentando de felicidade! Espero que em breve eu possa trazer um comunicado oficial.

“There are things I’ve done I can’t erase
I wanna look in the mirror and see another face
I said never but I’m doing it again
I wanna walk away and start over again!”

O Gato Pardo

27c99ac3f6922fe14865e1d2033f3e88No meu escritório mora um gato pardo
Que só faz dormir e comer
E quando é madrugada
E não há mais o que fazer
Esse gato sai
Em busca do rato mais gordo
E mais raro:
O rato envenenado
Que corre desesperado em busca de água
Enquanto o veneno lhe corrói as tripas.
Presa fácil
E o gato lhe come pelas beiradas
Deixando de sobremesa a gelatina amarga de suas entranhas
Estranho hábito do gato
Vai se deliciando naquela acidez fétida
Até começar a sentir dores abdominais
Então salta no muro, cai, rola, ronrona e rosna
Ele grita e geme
Esfrega a cara no chão
E passa a noite a ver estrelas
Estranhas, entranhas, devaneios
Entrelinhas.
Depois volta de manhã cambaleante
Ele sabe que há ração em algum lugar
Ele bebe água, bebe leite
Dorme.
Finge que nada aconteceu
Quando acorda, procura decidir se vale a pena
Sustentar seu terrível vício
Afinal de contas, levou uma vida de exercício
Para que seu organismo se adaptasse

Eu coloco papel na máquina
Me sirvo de rum
Olho para o gato
Ele dorme, mas me olha com um canto de olho
Sua língua descansa fora da boca
Deve estar morto – penso
E organizo os sons de um haikai
O gato acorda, levanta, ronrona
Está magro, machucado
Feito o poema que atiro no lixo, amassado
O gato se lembra de comer a ração toda
À noite ele há de lembrar de não comer o rato todo
– Pode ser fatal.
Mas mesmo assim ele sai.
Ele não sente cheiro de ratos
Mas mesmo assim ele sai.
Nem tudo o que escrevo eu guardo
Mas mesmo assim eu sou pai
Mesmo quando me esqueço
O significado de cada metáfora
Também não tomo a garrafa toda
– Um poema pode ser fatal.