Caixas

Meu peito é um sótão empoeirado
Onde ainda entram alguns feixes de luz
E onde guardo meus prazeres bem separados
Em caixas organizadoras etiquetadas
Com data, hora e prazo de validade
(Há muita coisa vencida por aqui…)

Essa bagunça toda que me atrapalha
Principalmente nos dias de faxina
São minhas dores
Que ficam aqui espalhadas
Sem etiquetas, sem validade
Acumulando um pó que me ataca a rinite

Há dias em que fico cismado
E espano a poeira
Tento encaixotar a bagunça
Mas ela transborda das caixas
Ou as infla até que explodam
Fazendo um estrondo tão grande
Que chega a derrubar algumas
Prateleiras de caixas etiquetadas

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Colação de Grau

Tive um sonho estranho essa noite.
Eu fazia parte de uma pequena turma que receberia o diploma do curso de Letras. Poucos formandos, mas o público que assistia era imenso, todos chorando em desespero e gritando “não” a cada formando que se aproximava da mesa para receber o canudo.
Uma família discutia, o pai defendendo que o filho deveria repensar, ainda “dava tempo”, poderia colar em alguém importante, virar deputado, fazer a vida, mas não: estava ali, pronto a dar o passo mais burro da vida. A mãe, pobrezinha, chorava e dizia aos soluços que “não criou o filho para aquele destino… Noites em claro, esquentar mamadeira de madrugada, sofrer junto com as febres.. E a catapora? Quanto sofrimento, quanta dedicação, para nada! Tinha que ser doutor. Ficar rico.”
E a cada diploma entregue, a torcida urrava como se urra em um estádio de futebol quando o melhor batedor erra um pênalti.
Mas eu fui salvo.
Chegada a minha vez, o reitor me cravou os olhos e bravejou:
– O que você faz aqui, seu incompetente? – e se virou furioso para um professor de sintaxe:
– Esse imbecil erra regência até hoje. Que vá escrever mal assim no inferno, talvez lá ele mereça ser diplomado! – e rasgou meu diploma impiedosamente.
O público comemorou eufórico.
Fui carregado nos braços por todas aquelas famílias. Atiravam-me para o alto e me acolhiam calorosos em seus braços, parecia um final de campeonato com goleada, e o artilheiro do time era eu.