Blues para Ferreira Gullar

Triste.
Impossível traduzir o tamanho dessa perda.
Ficamos com a parte permanente dele.
Fica a vaga da cadeira 37.
E mais um ciclo findo.
Ficam poemas lindos, poemas sujos, poemas limpos.
Fica uma dor maior que a de um rubi cravado no umbigo.
Descanse em paz, poeta lido, poeta amigo,
Nesse ciclo não deu tempo,
Mas eu sempre quis ter te conhecido.

“Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?”

 

Um pensamento sobre “Blues para Ferreira Gullar

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