Ponches et Circenses

Conforme prometido pela anfitriã
A recepção de Madame Zoraida
Já se prolongava até a manhã
Após o ludibrioso espetáculo do circo Malakov
Regalavam-se os convivas a ponche gelado
E Harvey Wallbanger de vodka Askov

Acomodado em uma chaise long
Desenhada por Le Corbusier
O arguto doutor Cheng Fong
Ajustando o pince-nez
Defendia o palhaço Kablong
Que tirara de cena de modo abrupto
O espetaculoso domador de pôneis
A contragosto do respeitável público

Madame Zoraida encolerizada,
Bradava ofensas ao tal saltimbanco:
– Pois eu digo que tudo não passou de um golpe!
– Golpe não foi! Visto que ambos são da mesma trupe!
– Golpe sujo e baixo! – Insistia a madame
– Não vejo o porquê! – fez o doutor
– Pois veja bem, que palhaço infame…
– Alto lá Zozô! Infame é dar show a domar alguns pôneis!

Enquanto os comensais acalorados
Tomavam partidos na capciosa contenda
Já altos de ponche e outros derivados
De lá da cidade, no fundo da tenda
O velho palhaço se demaquilava
E o domador abria um Velho Barreiro
Que há pouco fora buscar na venda
Ao sair mais cedo do picadeiro.

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Haikai em Technicolor

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Ainda sobre as margaridas da crônica de ontem:
O “Haikai em Technicolor” de hoje remete à lição dessa efêmera flor.
As margaridas que encontrei foram replantadas, é óbvio.
E quanto à nós?
Novas sementes foram lançadas nos jardins da infância.
Fomos semente.
Hoje somos um constante desabrochar.
E o universo vai arrancando nossas pétalas uma a uma, bem me quer, mal me quer…
Contemplemo-nos, enquanto é tempo.
Plenos, enquanto o somos.

Abraços metafísicos,

Bruno Félix

PS: Para quem ainda não conhece a série “Haikais em Technicolor”, há um álbum na página do FACEBOOK (aproveite e dê um like!) e uma galeria aqui no blog em POESIA DIVERSA. Enjoy!

 

Um dia para recordar

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Trinta anos atrás, formaram nesse local duas filas com as pequeninas crianças em primeira idade escolar: As meninas à esquerda e o os meninos à direita, todos apreensivos aguardando a chegada da professora. Tudo parecia muito grande e misterioso, afinal, ninguém sabia ao certo o que realmente aconteceria dentro da tal sala de aula. Pelo menos essa era a impressão de um dos meninos que estava entre os últimos da fila, bem ao lado de um canteiro com margaridas. A impaciência venceu o temor e a timidez do garoto que, com seu passo vacilante aproximou-se das margaridas e começou a despetalar uma flor, de maneira discreta e sem maldade, como um passatempo qualquer de criança.

Até que a professora chegou.

O menino parou assustado, temendo ser repreendido. Cláudia Dias, a jovem professora, apenas distribuiu sorrisos e cumprimentos, até tomar a dianteira da fila e conduzir os alunos ao primeiro dia de aula.

Dali em diante, todo o temor do menino se desvaneceu como as pétalas do jardim, que, de primavera em primavera se renovou. E de primavera em primavera, novas filas de alunos chegaram, novos mestres, novos tempos.

Retornei hoje ao colégio e, enquanto esperava o sinal para entrar na sala de aula, olhei pela janela e revi esse cenário, que fotografei. Revi o menino que esperava pela professora, um pouco assustado e ansioso, despetalando inocentemente uma das margaridas. Eu era aquele menino. De novo. Pois hoje eu não sabia ao certo o que aconteceria na sala de aula.

No sorriso que recebi de cada colaborador que me deu bom dia, pude ver o sorriso de tia Cláudia. Não há o que temer, pensei.

O sinal tocou.

Antes de ir conhecer meus alunos, lancei um último olhar sore a primeira sala de aula de minha vida e, para minha surpresa, no jardim tinha um canteiro com margaridas, no mesmo lugar.

Mentalmente, arranquei uma pétala “para dar sorte”, enxuguei minhas lágrimas e fui para a sala de aula.