Noturno nº1

IMG_3803Notas soltas pela madrugada
Versos espalhados no colchão
Sinto-me um poeta na calçada
Recolhendo estrofes pelo chão

Teu perfume em cada almofada
Triste fonte de inspiração
Solto notas pela madrugada
Pelas cordas do meu violão

Escrevo uma canção desesperada:
O copo, o corpo, a culpa, a solidão
Solidificando a minha mágoa
Recolhendo os versos do colchão.

Confessionário

confessional-04

Senhoras e senhores, eu confesso:

Confesso que nego.

Que de tanto ver, me faço de cego.

Confesso que peco.

Que peço arrego.

Que pego no sono,

Que sinto medo.

Confesso que odeio.

Confesso o receio

Que me consome e me parte ao meio.

Confesso que já julguei.

Vinde vós agora e julgai-me!

Jogai-me no fogo onde pagarei.

Pois no jogo da vida não pude ser rei.

Mas logo que pude eu me confessei.

Orgulhoso:

Não peço clemência.

Jamais pedirei.

Não quero nada

Absolutamente nada que venha de vós,

ó seres perfeitos.

Nem mesmo a vossa confissão.

Estado de emergência

Falta coragem

De fazer falta

Falta a fala

Falta.

Faltam pecados

Faltam padres

E pecadores

Faltam pescadores.

Falta água.

Falta teto.

Falta tudo.

Falta nada:

Sobra.

Sobram caras

Assombradas

Sombras

Taras.

Andam soltos velhos fantasmas

De um tempo em que não faltava

A boa e velha vergonha na cara.