Pequena reflexão

Às vezes encaramos os pequenos acontecimentos da vida assim como os descrevi: pequenos. Ou pior: por serem pequenos, muitas vezes sequer os encaramos. Refleti hoje sobre isso ao chegar em meu trabalho e ouvir meu cd tocando… Lembrei-me de quando eu não tinha coragem de cantar. Do tempo que perdi até me “destravar” e tomar umas aulinhas de técnica vocal depois de adulto. Tudo isso porque a primeira vez que ouvi minha voz cantada em uma gravação, não gostei. Não me acostumava a ouvir minha própria voz. Interessante como uma coisa tão pequena pôde me afetar por tanto tempo. Mais interessante ainda é o ponto para onde levei minha pequena reflexão:

Acostumar-me a ouvir a própria voz cantada foi um pequeno acontecimento que jamais devo menosprezar: Se eu tivesse desistido ali, o que seria de mim hoje fazendo poesia e tendo que conviver diariamente com os gritos da própria alma?

Nota do autor

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Não sei exatamente como foi que a história do equilibrista e da garotinha Angelina veio parar na minha cabeça, mas lembro que foi em uma manhã morna de outubro e que acordei com a voz de uma criança gritando:

– Cuidado! O senhor vai acabar caindo!

Deve ter sido um sonho, pensei. Virei-me de lado e constatei que Nina ainda dormia pesado, a luz fraca do abajur revelava o berço onde Joana repousava tranquila, às vésperas de completar seu décimo mês de vida. Fechei os olhos na tentativa de recuperar o sono e, quem sabe, também o sonho que naquele instante vinha em lampejos desconexos em minha cabeça.

Sob um viaduto alto, um fluxo rápido de automóveis produzia um intenso ruído que me fazia revirar na cama. Eu estava na beirada, pronto para me jogar. Olhei ao redor mais uma vez, não havia nenhum carro ou pedestre circulando sobre o pontilhão. Mas por que eu me lançaria para tal destino? Havia uma forte angústia, uma falta de ar, uma tontura.

– Cuidado! – a mesma voz chamou minha atenção, e acordei do primeiro sonho.

Angelina era uma negrinha de sete anos de idade que adorava Milk-shake de morango e cantigas de roda. Mas como eu sabia dessas coisas? De repente me dei conta de que estava sonhando, o que é muito perigoso, pois quando se toma a consciência de que tudo não passa de um sonho, a linha tênue que separa os dois universos está prestes a ser rompida de supetão. Por outro lado, é como se ganhássemos superpoderes, pois descobrimos que as leis da física não são tão importantes assim.

Foi assim que eu segurei na mão daquela garotinha e me lancei em uma jornada sem volta, anotando todas as pequenas aventuras e descobertas em um pequeno caderno branco, ou cor-de-rosa, não me lembro. A verdade é que quando acordamos, os detalhes vão se desvanecendo em degradê, na velocidade do nascer do sol. Por isso, lembro-me de ter levantado antes da alvorada e de sair do quarto na ponta dos pés, a fim de preservar o sonho mágico de Joana e começar a escrever a história de Antônio e Angelina, antes que o sol clareasse minha mente a ponto de me despertar do mundo real.

 

A ex-mulher do Rei

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Vou-me embora de Pasárgada
Disse um dia a mulher do Rei
Serei a mulher que eu quero
Na vida que escolherei
Vou-me embora de Pasárgada

Vou-me embora de Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Aqui todos querem uma aventura
De tal modo inconsequente
Que nem seu fosse presidente
Ou Rainha falsa e demente
Minha vida seria dura
Dura vida que nunca tive

E nunca farei ginástica
Andarei de bicicleta
Só para espairecer
Acordarei tarde, ou cedo
Tomarei banhos de mar!
E não vou viver preocupada
Com o que é belo ou feio
Se bebo vodca ou água
Ou se o corpo não é esguio
Se há rugas ou maquiagens
Não quero me preocupar
Vou-me embora de Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
Por isso falta emoção
Ergueram aqui um muro
Em torno da perfeição
Tem tecnologia de ponta
Para a gente se drogar
Tem todos prazeres possíveis
Para a gente se perder

E aqui ninguém fica triste
Mas a tristeza não é um defeito!
Pode até ser um belo jeito
Da gente se encontrar…
— Aqui abandono o rei —
Serei a mulher que eu quero
Na vida que escolherei
Vou-me embora de Pasárgada.

 

Prenda o Cunha

Chegou a hora de prender o Cunha
Ninguém mais quer o Cunha solto
Melhor deixar o Cunha preso
Porque o Cunha é muito sujo
Mais que pau de galinheiro

(Muitos ainda estão tentando
tirar o seu Cunha da reta
achando que vão ter Cunha limpo
se lavar bem o dinheiro)

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O Mestre e o Gafanhoto (a parábola das merdas)

Certa feita, um curioso viajante
Tendo notícia da fama do erudito Lokprakash¹
-Cujo renome já se espraiava
Desde o sopé do Himalaia
Aos confins de Bangladesh-
Foi ter com o ancião.

Pouco antes do encontro
Quis a sorte do viajor
Foder Feder com a ocasião
E o lustroso sapato Dior
Pisou luzidia merda no chão
Impregnando-se em raro fedor

Ora, o elegante visitante
Quedou-se triste e vexado
Pois caprichara na toalete
Com perfume almiscarado
Mas vendo chegar o indiano
Gaguejou embaraçado:

Oh, sa-sábio mestre Vatsala
Perdoe-me os modos
Digo, Sua Santidade,
Lokprakash Vatsala
Não quero causar incômodo
Mas quis a eventualidade…

Disse isso tudo o forasteiro
Mostrando o próprio sapato
E o descalço guru, bem ligeiro
Meteu-lhe na cara um sopapo:
– Ingrato! Não vês que é auspicioso
Pisar assim, em um grande merdeiro?

Pois saiba de agora em diante
Que só não pisa na merda aquele
Que anda sempre cabisbaixo
– Mas mestre. – Retorquiu o visitante
Não sei ao certo se nisso me encaixo
Veja bem, que a bosta era grande!

– Quanto maior a bosta, maior a sorte.
Pois o homem que não a enxerga
Certamente está de cabeça erguida:
Possui metas, é sábio e forte
E não se envergonha da vida vivida.
Por isso digo: mais merda, mais sorte.

– Então sendo assim… E se fosse um cocô de vaca?
– Vaca sagrada, sorte multiplicada.
– Se fosse então, cocô de elefante?
– Cocô muito grande, sorte gigante.
– Entendi. Quanto mais cabeça erguida…
– Sim. Desde que seja o seu natural.

– Mas mestre, por favor me diga:
E se por acaso, um pombo acertar
Seus dejetos em minha cabeça?
– É sorte! – respondeu com veemência.
Apesar de que talvez seja
Incômodo de se limpar.

– Ok. Mas há erro na teoria
Pois se há auspício na altivez
E quanto mais alta a cabeça, melhor,
Talvez um pombo acertaria
Não a cabeça, mas os olhos do freguês!
E não vejo sorte em ter os olhos cagados.

Lokprakash cerrou os olhos e, após um longo suspiro, concluiu:
– Aprenda de uma vez, pequeno gafanhoto,
Que o sábio mantém a cabeça erguida
Mas nunca de forma exagerada
Pois sabe que assim age o tolo
Que de tanto a erguer não enxerga a estrada.

                               ***

¹Lokprakash Vatsala é um personagem que aparece em 4 poemas do livro “O Busto de Adão e Outras Poesias” (págs 31/33 e 49/54). Dado à incomensurável sabedoria e carisma do ancião indiano, achei justo dar vazão a novos poemas onde ele possa doutrinar.

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Lokprakash Vatsala em “O Mestre e o Peregrino” (O Busto de Adão e Outras Poesias, pág. 40) Ilustração de Arthur F. Pádua.